| O que a Bíblia
diz sobre cair no Espírito?
Claudionor
Corrêa de Andrade
Revista Defesa da Fé
Embora
fervoroso pentecostal, Gunnar Vingren (missionário sueco, um dos
fundadores da Assembléia de Deus) não se deixou embair pelo
emocionalismo nem pelas aparências. Ele sabia que nem tudo o que
é místico é espiritual; pode brilhar, mas não
e avivamento. O misticismo manifesta-se também em rebeldias e mentiras.
Haja vista as seitas proféticas e messiânicas.
Teve o nosso pioneiro, como precavido condutor de ovelhas, suficiente
discernimento para não aceitar aquele arremedo de pentecostes.
Fosse um desses teólogos que colocam a experiência acima
da Bíblia Sagrada, o pentecostalismo autêntico jamais teria
saído do nascedouro.
Entre as manifestações presenciadas por Gunnar Vingren,
achava-se o "cair no poder" que, já naquela época, era conhecido
também como "arrebatamento de espírito". À primeira
vista, impressionava; fazia espécie. Não resistia, contudo,
ao mínimo confronto com as Escrituras, e nada tinha que ver com
as experiências semelhantes que se acham nas páginas da Bíblia.
Irreverente e apócrifo, esse misticismo não se limitou à
geração de Vingren. Continua a assaltar a Igreja de Cristo
com demonstrações cada vez mais peregrinas e contraditórias.
O seu alvo? Levar a confusão ao povo de Deus. No combate a tais
coisas, haveremos de ser enérgicos, sábios e convincentes,
mas sempre equilibrados. Através da Bíblia, temos a obrigação
de mostrar a pureza e a essência de nossa crença, e a "batalhar
pela fé que uma vez foi dada aos santos" (Jd 3).
Neste artigo, detenhamo-nos ao fenômeno do "cair no "Espírito",
como vem sendo caracterizado, começou a ganhar notoriedade a partir
de 1994. Neste ano, a Igreja Comunhão da Videira do Aeroporto de
Toronto, no Canadá, passou a ser visitada por milhares de crentes,
todos à procura de uma bênção especial. Ao
contrário das demais igrejas pentecostais, que buscam preservar
a ortodoxia doutrinária, a Igreja do Aeroporto, como hoje é
conhecida, granjeou surpreendente notoriedade em virtude das manifestações
que ocorriam em seu cultos.
Dizendo-se cheios do Espírito, os freqüentares dessa igreja
começaram a manifestar-se de maneira estranha e até exótica.
Em dado momento, todos punham-se a rir de maneira incontrolável;
alguns chegavam a rolar pelo chão. Justificando essa bizarra, alegavam
tratar-se de santa gargalhada. Ou gargalhada santa? Outros iam mais longe:
não se limitavam ao estrepitoso dos risos; saíam urrando
como se fossem leões; balindo, como carneiros, ou gritando, como
guerreiros, e ainda outros "caíam no Espírito".
À primeira vista, tais manifestações impressionam.
Impressionam, apesar de não contarem com necessário respaldo
bíblico. Entretanto, não devemos nos deixar arrastar pelas
aparências, nem pelo exotismo desses "fenômenos". Temos de
nos posicionar segundo a Bíblia que, não obstante os modismos
e ondas, continuam a ser a nossa única regra de fé e conduta.
O cair no Espírito na Bíblia
Nas Sagradas Escrituras, o cair no Espírito não chega a
ser um fenômeno: é mais uma reação reverente
diante do sobrenatural. Registram-se apenas, tanto no Antigo quanto no
Novo Testamento, 11 casos de pessoas que caíram prostradas, com
o rosto em terra, em sinal de adoração a Deus: são
episódios isolados. Não têm foro de doutrina, nem
argumentos para alicerçar um costume nem para reivindicar uma liturgia;
não podem sacramentar alguma prática. Afinal, reação
é reação; apesar de semelhantes. Diferem entre si.
Como hão de fundamentar dogmas de fé?
Verificamos, pois, em que circunstâncias deram-se os diversos casos
de cair por terra nos relatos bíblicos.
A força de uma visão nitidamente celestial
As visões, na Bíblia, tinham uma força impressionante:
agitavam, enfraqueciam e até deixavam por terra homens santos de
Deus. Que o diga Daniel. Já encerrado o seu livro, o profeta registra
esta formidável experiência: "Fiquei pois eu só a
contemplar a grande visão, e não ficou força em mim;
desfigurou-se a feição do meu rosto, e não retive
força alguma. Contudo, ouvi a voz das suas palavras; e, ouvindo
o som das suas palavras, eu caí num profundo sono, com o rosto
em terra." Dn 10:8-9
Em sua primeira visão, Ezequiel também se assusta com o
que vê. Ele se apavora: "...Este era o aspecto da semelhança
da glória do Senhor; e, vendo isso, caí com o rosto em terra,
e ouvi uma voz de quem falava." Ez 1:28. Sem liturgia, ou intervenção
humana, o profeta prostra-se todo, e quem não haveria de prosternar?
Mesmo o mais forte dos homens, não se agüentaria diante de
tamanho poder e glória. Recurvar-se-ia; lançar-se-ia com
o rosto em terra.
Mais, encontraremos Ezequiel outro caso de prostração: "Então
me levantei, e saí ao vale; e eis que a glória do Senhor
estava ali, como a glória que vi junto ao rio Quebar; e caí
com o rosto em terra." Ez 3:23. Quem não cairia ante as singularidades
da glória de Deus? Quem a resistiria?
Já no final de seus arcanos, Ezequiel vê-se constrangido
a comportar-se de igual maneira: "E a aparência da visão
que tive era como a da visão que eu tivera quando ele veio destruir
a cidade; eram as visões como a que tive junto ao rio Quebar; e
caí com o rosto em terra." Ez 43:3.
Nesses casos, as visões divinas foram tão fortes que levaram
tanto Ezequiel como Daniel a caírem por terra. Noutras ocasiões,
porém, a ocorrência de visões, igualmente poderosas,
não provocou alguma prostração. Haja vista o caso
de Isaías. Embora se mostrasse aterrorizado e compungido com a
visão do trono divino, não se menciona ter o profeta caído
por terra. Isto significa que as experiências, embora semelhantes,
possuem suas particularidades e idiossincrasias, isto é, cada experiência,
ou encontro com Deus, é única. Seria tolice pretender repeti-las
para que a sua repetição adquirisse foros de doutrina.
Como os legítimos representantes de Deus
portaram-se quando alguém caía por terra?
Ao contrário dos que hoje portam-se como deuses diante de virtuais
casos de prostração, os apóstolos de Cristo jamais
aceitaram tal deferência. Em todas as instâncias, procuravam
sempre glorificar o nome do Senhor. Em casos semelhantes, até mesmo
anjos agiram com reconhecida e santa modéstia.
Tendo Pedro chegado à casa de Cornélio, a primeira reação
deste foi cair de joelhos do apóstolo: "Mas Pedro o levantou, dizendo:
Levanta-te, que também sou homem." At 10:25-26. O que fariam os
astros do evangelismo nos dias atuais? Humilhar-se-iam como apóstolo?
Ou usariam o evento para incrementar o seu marketing pessoal? Nem mesmo
um poderoso anjo se aproveitou da ocasião para atrair a si as glórias
devidas somente a Deus. O relato é de João: "...prostrei-me
aos pés do anjo que mas mostrava, para o adorar. Mas ele me disse:
Olha, não faças tal; porque eu sou conservo teu e de teus
irmãos, os profetas, e dos que guardam as palavras deste livro.
Adora a Deus." Ap. 22:8-9.
O anjo bem sabia que o apóstolo prostrara-se aos seus pés
por uma circunstância bastante especifica: não há
ser humano que não extasie diante do sobrenatural. A aparição
de um ente celestial sempre perturbou os pobres mortais. Nos dias dos
juízes, acreditava-se que a visão de um anjo significava
morte certa. Por isso, a primeira reação de uma pessoa ao
ver um anjo era curvar-se diante do ser angelical. Quem poderia resistir
a tanta glória?
Os anjos, porém, recusavam tal deferência. Houve ocasiões
em que o anjo do Senhor aceitou elevadas honrarias. Como conciliar tais
questões? No A.T., sempre que isso ocorria, era devido à
presença de um ser especial, que alguns teólogos não
vacilam em apontar como a pré-encarnação de Cristo.
De uma forma ou de outra, os anjos eram santos suficientemente para agir
com modéstia e humildade, tributando a Deus todo o poder e toda
a glória.
Que esta também seja a nossa postura! Quando, por alguma circunstância,
alguém cair a nossos pés, levantemo-o para que tribute a
Deus, e somente a Deus, toda a honra e toda a glória, e jamais,
sob hipótese alguma, induzamos alguém a prostra-se com o
rosto em terra, pois isto contraria a ética e a postura que homem
de Deus deve ter.
O impacto de um encontro com Deus
Além das visões, certos encontros com Deus, tanto no Antigo
como no Novo Testamento, levaram à prostração. Mencione-se,
por exemplo, o que aconteceu a Saulo no caminho de Damasco. O encontro
com Jesus foi tão formidável, que forçou o implacável
perseguidor a cair por terra, e a reconhecer a autoridade e a soberania
do Filho de Deus: "e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo,
Saulo, por que me persegues?" Atos 9:4.
Como nos casos anteriores, nada havia sido programado. Saulo foi levado
a recurvar-se, em virtude da sublimidade do Senhor Jesus. Noutras ocasiões,
porém, os encontros com Deus deram-se de maneira suave. A entrevista
de Natanael com Jesus é um exemplo bastante típico dessa
suavidade tão santa.
Quer dizer também do encontro de Gideão com o anjo do Senhor?
Ou do encontro de Jeremias com Jeová? Este encontro veio na medida
certa; veio de acordo com o caráter suave e melancólico
do profeta. Tivesse, porém, Jeremias o temperamento colérico
de Paulo, certamente o Senhor teria agido com impacto, para que o vaso
fosse quebrado e moldado conforme sua vontade. Como se vê, as experiências
variam de acordo com as circunstâncias e a personalidade das pessoas
envolvidas no plano de Deus.
A autoridade do nome de Cristo é mais que suficiente para fazer
que todos os joelhos se dobrem diante dele; aliás, chegará
o momento em que todos os seres, quer nos céus, quer na terra,
quer sob a terra, hão de se curvar diante da infinita grandeza
do nome do Senhor Jesus: "Pelo que também Deus o exaltou soberanamente,
e lhe deu o nome que é sobre todo nome; para que ao nome de Jesus
se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra,
e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é
Senhor, para glória de Deus Pai.." Fp 2:9-11.
Na noite de sua paixão, o Senhor demonstrou grande era a sua autoridade:
"Quando, pois, (Jesus) lhes disse: Sou eu, recuaram e caíram por
terra" Jo 18:6. Ao contrário dos casos anteriores, nessa passagem,
quem cai por terra são os ímpios. Recurvam-se estes não
em sinal de reverência a Deus, mas em razão da autoridade
e soberania irresistíveis de Cristo.
Caso semelhante ocorreu com Ananias e Safira. Ambos caíram por
terra em decorrência de sua iniqüidade: "Disse então
Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração,
para que mentisses ao Espírito Santo e retivesses parte do preço
do terreno? Enquanto o possuías, não era teu? e vendido,
não estava o preço em teu poder? Como, pois, formaste este
desígnio em teu coração? Não mentiste aos
homens, mas a Deus. E Ananias, ouvindo estas palavras, caiu e expirou.
E grande temor veio sobre todos os que souberam disto." At 5:3-5
Casos como esses não são raros. Em nossos dias, muitos são
os ímpios que, por se levantarem contra os escolhidos do Senhor,
caem por terra e, à vezes, fulminados.
Noutras ocasiões, porém, o Senhor revelou-se de maneira
tão suave, que se fez homem diante dos homens. Que encontro mais
doce do que aquele que se deu junto ao poço de Jacó? O Senhor
revela-se de maneira surpreendentemente afável à mulher
samaritana. E a experiência de Nicodemos? Ou a de Zaqueu?
Nas efusões do Espírito Santo de Atos dos Apóstolos
houve casos de prostração?
Na ânsia de justificar o cair por terra que, como já dissemos
tem de ser visto como episódio e não como histórico,
muitos teólogos chegam a colocar tal reação como
se fora uma das evidências da plenitude do Espírito Santo.
Que pode haver prostração durante a efusão do Espírito,
não o negamos. Pode haver, mas não tem de haver necessariamente,
nem precisa haver para que se configure o derramamento do Espírito
Santo. A prostração não pode ser vista como evidência,
mas como uma reação ocasional e esporádica.
Nos diversos casos de efusão do Espírito Santo, nos Atos
dos Apóstolos, não se observou algum caso de prostração.
No dia de Pentecostes, segundo no-lo notifica o minucioso evangelista
Lucas, estavam todos assentados no cenáculo (At 2:2). Na casa de
Cornélio, onde o Espírito foi derramado pela primeira vez
sobre os gentios, também não se observou o cair por terra
(At 10:44-47). Entre os discípulos de Éfeso também
não se registrou alguma prostração (At 19:6).
Em todos esses casos, porém, a evidência inicial e física
do batismo no Espírito Santo fez-se presente. Concluí-se,
pois, que não se deve confundir evidência com reação.
A evidência é a mesma em todos os que recebem a plenitude
do Espírito Santo. A reação, todavia, varia de pessoa
para pessoa.
Mesmo quando o lugar santo tremeu, não se observou caso algum de
prostração (At 4:31). Poderia ter havido? Sim, mas não
necessariamente.
Conclusões
Do que até agora vimos acerca do "cair no Espírito", podemos
tiras as seguintes conclusões, tendo sempre como base as Sagradas
Escrituras:
1. Não se deve realçar a experiência, nem guinda-la
a uma posição superior à da Palavra de Deus. A experiência
é importante, mas varia de pessoa para pessoa; cada experiência
é uma experiência; tem suas particularidades. A experiência
tem de estar submissa à doutrina, e não há de modificar-se,
por mais extraordinária que seja, nenhum artigo de fé.
2. O cair por terra não deve ser visto como evidência
da plenitude do Espírito Santo, nem como sinal de uma vida consagrada.
A evidência do batismo no Espírito Santo são as línguas
estranhas; e a vida consagrada tem como característica o fruto
do Espírito. O cair por terra pode ser admitido, no máximo,
como reação esporádica de alguma visitação
dos céus. Se provocado, ou repetido, deixa de ser reação
para tornar liturgia.
3. Caso ocorra alguma prostração, deve-se fazer as
seguintes perguntas: 1) Qual a sua procedência? 2) Teve como objetivo
promover o homem ou glorificar a Deus? 3) Foi usada para catalisar a atenção
dos presentes? 4) Foi provocada por sopros, toques ou por algum objeto
lançado no auditório? 5) Houve sugestão coletiva?
6) Prejudicou a boa ordem e a decência da igreja? 7) Conta com o
respaldo bíblico suficiente? 8) Tornou-se o centro do culto?
4. Devemos estar sempre atentos, pois o adversário também
opera sinais espetaculares com o objetivo de enganar os escolhidos: "porque
hão de surgir falsos cristos e falsos profetas, e farão
grandes sinais e prodígios; de modo que, se possível fora,
enganariam até os escolhidos." Mt 24:24
5. Nos diversos exemplos de prostração que fomos
buscar na Bíblia, observamos o seguinte: Os personagens que se
prostraram, ou foram prostrados, em virtude de alguma experiência
sobrenatural, caíram para frente, e não para trás,
como está ocorrendo hoje em algumas igrejas. Não era algo
programado, nem ministro algum os induzia a cair, ou seja, ninguém
precisou soprar neles ou neles tocar para que caíssem. Tais modismos
têm levado a irreverência e a bizarra ao seio do povo de Deus.
Há alguns que se tornaram tão ousados que jogam até
seus paletós a fim de provocar prostrações coletivas.
Isto é um absurdo! É antibíblico!
6. Os casos de prostração narrados na Bíblia
deram-se em virtude da reverência e temor que os já citados
personagens sentiram ao presenciar a glória divina. No N.T. o termo
usado para prostração é pesotes prosekinsan que,
no original, significa: cair por terra em sinal de devoção.
Em Apocalipse 5:14, a expressão grega aparece para mostrar os anciãos
prostrados aos pés do Cristo glorificado.
7. Voltemos à questão. Pode acontecer prostração
numa reunião evangélica? Pode, mas não tem de acontecer
necessariamente, pode, mas não precisa acontecer, nem ser provocada.
Caso aconteça, deve ser encarada como reação e não
como fato doutrinário. John e Charles Wesley, por exemplo, experimentaram
um poderoso avivamento, mas jamais elevaram suas experiências à
categoria de doutrina. As heresias nascem quando se supervaloriza a experiência
em detrimento da doutrina. Não devemos nos esquecer de que algumas
das mais notáveis heresias deste século, como a Igreja Só
Jesus, nasceu em pleno período de avivamento.
8. De certa forma, todo avivamento provoca extremismos. Cabe-nos,
porém, buscar o equilíbrio tão necessário
à Igreja de Cristo. Era o que ocorria em Corinto. Não resta
dúvida de que os irmãos daquela comunidade cristã
haviam recebido forte visitação dos céus. Tiveram,
todavia, de ser doutrinados e disciplinados. A esses irmãos escreveu
Paulo: "32 pois os espíritos dos profetas estão sujeitos
aos profetas; porque Deus não é Deus de confusão,
mas sim de paz. Como em todas as igrejas dos santos." I Co 14:32-33
Finalmente, jamais devemos abandonar a Bíblia. Ênfases, como
cair no Espírito, hão de surgir sempre. Não devemos
nos impressionar com elas; tratemo-las com o devido equilíbrio.
Pois o equilíbrio bíblico e teológico há de
manter a igreja de Cristo em permanente avivamento, e o verdadeiro avivamento
não extingue o Espírito, mas sabe como evitar os excessos. |