(Paulo
R. B. Anglada)
Sob
o nome de Escrituras Sagradas, ou Palavra de Deus escrita,
incluem-se agora todos os livros do Velho e do Novo Testamentos,
todos dados por inspiração de Deus para
serem a regra de fé e prática, que são
os seguintes:
O
Antigo Testamento: Gênesis, Êxodo,
Levítico, Números, Deuteronômio,
Josué, Juízes, Rute, 1 Samuel, 2 Samuel,
1 Reis, 2 Reis, 1 Crônicas, 2 Crônicas,
Esdras, Neemias, Ester, Jó, Salmos, Provérbios,
Eclesiastes, Cantares, Isaías, Jeremias, Lamentações,
Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós,
Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias,
Ageu, Zacarias, Malaquias.
O
Novo Testamento: Mateus, Marcos, Lucas, João,
Atos, Romanos, 1 Coríntios, 2 Coríntios,
Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses,
1 Tessalonicenses, 2 Tessalonicenses, 1 Timóteo,
2 Timóteo, Tito, Filemon, Hebreus, Tiago, 1
Pedro, 2 Pedro, 1 João, 2 João, 3 João,
Judas, Apocalipse.
Os
livros geralmente chamados Apócrifos, não
sendo de inspiração divina, não
fazem parte do Cânon da Escritura; não são,
portanto, de autoridade na Igreja de Deus, nem de modo
algum podem ser aprovados ou empregados senão
como escritos humanos (Confissão de Fé de
Westminster, 1:2-3).
O
ensino destes parágrafos da Confissão de
Fé de Westminster diz respeito especialmente ao
cânon das Escrituras. Nele não são
indicados os critérios empregados. São
apenas relacionados os sessenta e seis livros aceitos
como canônicos, ou seja, como inspirados por Deus,
que compõem a Bíblia Protestante. Quanto
aos livros apócrifos, que foram incluídos
na Bíblia Católica, são explicitamente
considerados não inspirados e, portanto, não
autoritativos; não devendo ser empregados
senão como escritos humanos.
A
palavra cânon é mera transliteração
do termo grego kanwvn, que significa vara reta, régua,
regra. Aplicado às Escrituras, o termo designa
os livros que se conformam à regra da inspiração
e autoridade divinas. Atanásio (séc. IV)
parece ter sido o primeiro a usar a palavra neste sentido.[1]
São chamados de canônicos, portanto, os
livros que foram inspirados por Deus, os quais compõem
as Escrituras Sagradas — o cânon bíblico.
Qual
o cânon das Escrituras? Quais são os livros
canônicos, ou seja, inspirados? Como se dividem?
Há alguma regra pela qual se pôde averiguar
a canonicidade de um livro? Como explicar a diferença
entre os cânones hebraico, católico e protestante?
São estas as perguntas que precisam ser respondidas
com relação ao presente assunto.
O
CÂNON PROTESTANTE DO ANTIGO TESTAMENTO
Origem
O cânon protestante do Antigo Testamento (composto pelos trinta
e nove livros relacionados acima) é exatamente igual ao cânon
hebraico massorético. O cânon massorético é a
Bíblia hebraica em sua forma definitiva, vocalizada e acentuada
pelos massoretas. A ordem dos livros, entretanto, segue a da Vulgata
e da Septuaginta.
Os
Massoretas
Os massoretas eram judeus estudiosos que se dedicavam à tarefa
de guardar a tradição oral (massora) da vocalização
e acentuação correta do texto. À medida que um sistema
de vocalização foi sendo desenvolvido, entre 500 e 950
AD, o texto consonantal que receberam dos soferim[2] foi sendo por eles
cuidadosamente vocalizado e acentuado. Além dos pontos vocálicos
e dos acentos, os massoretas acrescentavam também ao texto as
massoras marginais, maiores e finais, calculadas pelos soferim. Essas
massoras (tradições) eram estatísticas colocadas
ao lado das linhas, ao fim das páginas e ao final dos livros,
indicando quantas vezes uma determinada palavra aparecia no livro, o
número de versículos, palavras e letras. Elas indicavam
até a palavra e letra central do livro.[3]
O
Cânon Massorético
Embora o conteúdo do cânon protestante seja o mesmo do cânon
hebraico, a divisão e a ordem dos livros são diferentes.
Eis a divisão e ordem do cânon hebraico:
O
Pentateuco (Torá): Gênesis, Êxodo,
Levítico, Números, Deuteronômio.
Os
Profetas (Neviim):
Anteriores: Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis.
Posteriores: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Profetas Menores.
Os
Escritos (Kêtuvim):
Poesia e Sabedoria: Salmos, Provérbios e Jó.
Rolos ou Megilloth (lidos no ano litúrgico): Cantares (na páscoa),
Rute (no pentecostes), Lamentações (no quinto mês),
Eclesiastes (na festa dos tabernáculos) e Ester (na festa de purim).
Históricos: Daniel, Esdras, Neemias e 1 e 2 Crônicas.
O
Cânon Consonantal
A divisão e ordem dos livros no cânon hebraico consonantal
(anterior) era a mesma. O número de livros, entretanto, era diferente.
O conteúdo era o mesmo, mas agrupado de modo a formar apenas vinte
e quatro livros. Os livros de 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis e 1 e 2 Crônicas
eram unidos, formando apenas um livro cada (o que implica em três
livros a menos em relação ao nosso cânon). Os doze
profetas menores eram agrupados em um só livro (menos onze livros).
Esdras e Neemias formavam um só livro, o Livro de Esdras (menos
um livro).
Testemunhas
Antigas do Cânon Protestante Hebraico
A referência mais antiga ao cânon hebraico é do historiador
judeu Josefo (37-95 AC). Em Contra Apionem ele escreve: “Não
temos dezenas de milhares de livros, em desarmonia e conflitos, mas só vinte
e dois, contendo o registro de toda a história, os quais, conforme
se crê, com justiça, são divinos.”[4] Depois
de referir-se aos cinco livros de Moisés, aos treze livros dos
profetas, e aos demais escritos (os quais “incluem hinos a Deus
e conselhos pelos quais os homens podem pautar suas vidas”), ele
continua afirmando:
Desde
Artaxerxes (sucessor de Xerxes) até nossos dias,
tudo tem sido registrado, mas não tem sido considerado
digno de tanto crédito quanto aquilo que precedeu
a esta época, visto que a sucessão dos
profetas cessou. Mas a fé que depositamos em nossos
próprios escritos é percebida através
de nossa conduta; pois, apesar de ter-se passado tanto
tempo, ninguém jamais ousou acrescentar coisa
alguma a eles, nem tirar deles coisa alguma, nem alterar
neles qualquer coisa que seja.[5]
Josefo é suficientemente
claro. Como historiador judeu, ele é fonte fidedigna.
Eram apenas vinte e dois os livros do cânon hebraico
agrupados nas três divisões do cânon
massorético. E desde a época de Malaquias
(Artaxerxes, 464-424) até a sua época nada
se lhe havia sido acrescentado. Outros livros foram escritos,
mas não eram considerados canônicos, com
a autoridade divina dos vinte e dois livros mencionados.
Além
de Josefo, Mileto, Bispo de Sardes, diz ter viajado para
o Oriente, em 170, com o propósito de investigar
a ordem e o número dos livros do Antigo Testamento;
Orígenes, o erudito do Egito, que morreu em 254;
Tertuliano (160-250), pai latino contemporâneo
de Orígenes; e Jerônimo (340-420), entre
outros, confirmam o cânon hebraico de vinte e dois
ou vinte e quatro livros (dependendo do agrupamento ou
não de Rute e Lamentações).
É interessante
observar que o próprio Jerônimo, tradutor
da Vulgata latina, que daria origem ao cânon católico,
embora considerasse os livros apócrifos úteis
para a edificação, não os tinha
como canônicos. Embora tendo traduzido outros livros
não canônicos, ele escreveu que “deveriam
ser colocados entre os apócrifos,” afirmando
que “não fazem parte do cânon.” Referindo-se
ao livro de Sabedoria de Salomão e ao livro de
Eclesiástico, ele diz: “Da mesma maneira
pela qual a igreja lê Judite e Tobias e Macabeus
(no culto público), mas não os recebe entre
as Escrituras canônicas, assim também sejam
estes dois livros úteis para a edificação
do povo, mas não para receber as doutrinas da
igreja.”[6]
Vale
salientar ainda que a versão siríaca Peshita,
que bem pode ter sido feita no século II ou III,[7]
ou até mesmo no século I,[8] nos manuscritos
mais antigos, não contém nenhum dos apócrifos.
O
Testemunho de Jesus e dos Apóstolos
Embora as evidências já mencionadas sejam importantes, a
principal testemunha do cânon protestante do Antigo Testamento é o
Novo Testamento. Jesus e os apóstolos não questionaram
o cânon hebraico da época (época de Josefo, convém
lembrar). Eles citaram-no cerca de seiscentas vezes, de modo autoritativo,
incluindo praticamente todos os livros do cânon hebraico. Entretanto,
não citam nenhuma vez os livros apócrifos.[9] Pode-se concluir,
portanto, que Jesus e os apóstolos deram o imprimatur deles ao
cânon hebraico e, conseqüentemente, ao cânon protestante.
O
CÂNON CATÓLICO DO ANTIGO TESTAMENTO
Origem
O cânon católico, composto pelos trinta e nove livros encontrados
no cânon protestante, acrescido das adições a Daniel
e Ester, e dos livros de Baruque, Carta de Jeremias, 1-2 Macabeus, Judite,
Tobias, Eclesiástico e Sabedoria — 3 e 4 Esdras e a Oração
de Manassés são acrescentadas depois do NT — origina-se
da Vulgata latina, que por sua vez provém da Septuaginta.
A
Septuaginta
A Septuaginta é uma tradução dos livros judaicos
para o grego feita, possivelmente, durante o reinado de Ptolomeu Filadelfo
(285-245 a.C.) ou até meados do século I a.C., para a biblioteca
de Alexandria, no Egito.[10] Os tradutores não se limitaram a
traduzir os livros considerados canônicos pelos judeus. Eles
traduziram os demais livros judaicos disponíveis. E, a julgar
pelos manuscritos existentes, deram um arranjo tópico à biblioteca
judaica, na seguinte ordem:
Livros
da Lei: Gênesis, Êxodo, Levítico,
Números e Deuteronômio.
Livros
de História: Josué, Juízes,
Rute, 1-2 Samuel, 1-2 Reis (chamados 1-2-3-4 reinados),
1-2 Crônicas, 1-2 Esdras (o primeiro apócrifo),
Neemias, Tobias, Judite e Ester.
Livros
de Poesia e Sabedoria: Jó, Salmos,
Provérbios, Eclesiastes, Cantares, Sabedoria
de Salomão, Sabedoria de Siraque (ou Eclesiástico).
Livros
Proféticos: Profetas Menores; Profetas
Maiores: Isaías, Jeremias, Baruque, Lamentações,
Epístola de Jeremias, Ezequiel, e Daniel (incluindo
as histórias de Susana, Bel e o Dragão
e o cântico dos Três Varões).
Alguns
desses livros foram escritos posteriormente, em grego,
possivelmente por judeus alexandrinos, e foram incluídos
na biblioteca judaica de Alexandria, tais como Primeiro
e Segundo Esdras, adições a Ester, Sabedoria,
e a Epístola de Jeremias. Nem sempre todos estes
livros estão presentes nos manuscritos antigos
da Septuaginta. O Códice Vaticano (B) omite Primeiro
e Segundo Macabeus (canônicos para a Igreja Católica)
e inclui Primeiro Esdras (não canônico para
a Igreja Católica). O Códice Sináitico
(À) omite Baruque (canônico para Roma),
mas inclui o quarto livro dos Macabeus (não canônico
para Roma). O Códice Alexandrino (A) inclui o
Primeiro Livro de Esdras e o Terceiro e Quarto Livros
dos Macabeus (apócrifos para Roma).
O
que se pode concluir daí é que, quando
a Septuaginta era copiada, alguns livros não canônicos
para os judeus eram também copiados. Isso poderia
ter ocorrido por ignorância quanto aos livros verdadeiramente
canônicos. Pessoas não afeiçoadas
ao judaísmo ou mesmo desinteressadas em distinguir
livros canônicos dos não canônicos
tinham por igual valor todos os livros, fossem eles originalmente
recebidos como sagrados pelos judeus ou não. Mesmo
aqueles que não tinham os demais livros judaicos
como canônicos certamente também copiavam
estes livros, não por considerá-los sagrados,
mas apenas para serem lidos. Por que não copiar
livros tão antigos e interessantes?
Mesmo
pessoas bem intencionadas podem ter sido levadas a rejeitar
alguns dos livros canônicos, ou a aceitar como
canônicos alguns que não o fossem, por ignorância
ou má interpretação da história
do cânon. Convém lembrar que, embora o testemunho
do Espírito Santo seja a principal regra de canonicidade
por parte da igreja como um todo, mesmo assim, o crente
ainda tem uma natureza pecaminosa que não
o livra totalmente de incidir em erro, inclusive quanto
ao assunto da canonicidade. Isto acontece especialmente
em épocas de transição, como
foi o caso de Agostinho que defendeu os livros apócrifos,
embora de modo dúbio, e depois o de Lutero, o
qual colocou em dúvida a canonicidade da carta
de Tiago.
A
Vulgata
Como já foi mencionado, ao traduzir a Vulgata, Jerônimo
também incluiu alguns livros apócrifos. Não o fez,
contudo, por considerá-los canônicos, mas apenas por considerá-los úteis,
como fontes de informação sobre a história do povo
judeu.
Na
Idade Média a versão francamente usada
pela igreja foi a Vulgata latina. A partir dela e da
Septuaginta também foram feitas outras traduções.
Ora, multiplicando-se o erro, e afastando-se cada vez
mais a igreja da verdade (como aconteceu crescentemente
nesse período), tornou-se mais e mais difícil
distinguir entre os livros que deveriam ser considerados
canônicos ou não. Esses livros nunca foram
completamente aceitos, mesmo nessa época.
Mas, por estarem incluídos nessas versões,
a igreja em época de trevas, geralmente falando,
não teve discernimento espiritual para distinguir
entre livros apócrifos e canônicos.
Por
fim, no Concílio de Trento, em 1546, também
em reação contra os protestantes, que reconheceram
apenas o cânon hebraico, a igreja de Roma declarou
canônicos os livros apócrifos relacionados
acima, bem como autoritativas as tradições
orais: “O Sínodo... recebe e venera todos
os livros, tanto do Antigo como do Novo Testamento...
assim como as tradições orais.” A
seguir são relacionados todos os livros considerados
canônicos, incluindo os apócrifos. Concluindo,
o decreto adverte:
Se
qualquer pessoa não aceitar como sagrado e canônico
os livros mencionados em todas as suas partes, do modo
como eles têm sido lidos nas igrejas católicas,
e como se encontram na antiga Vulgata latina, e deliberadamente
rejeitar as tradições antes mencionadas,
seja anátema.[11]
A
igreja grega seguiu mais ou menos os passos da igreja
ocidental. Houve sempre dúvida na aceitação
dos apócrifos, mas, no Concílio de Trulano,
em 692, foram todos aceitos (quatorze). Ainda assim,
como sempre houve reservas quanto à plena aceitação
de muitos deles, a igreja grega, em 1672, acabou reduzindo
para quatro o número dos apócrifos aceitos:
Sabedoria, Eclesiástico, Tobias e Judite.[12]
Conclusão
Por ironia da História, a Vulgata de Jerônimo, o qual não
considerava canônicos os livros apócrifos,[13] veio a ser
a principal responsável pela inclusão destes mesmos livros
no cânon católico.
A
obra dos reformadores foi maior do que se pode pensar à primeira
vista. Eles não apenas redescobriram as doutrinas
básicas do evangelho, como a doutrina da salvação
pela graça mediante a fé. Eles redescobriram
também o cânon. Graças a eles e ao
testemunho do Espírito Santo, a igreja protestante
reconhece como canônicos, com relação
ao Antigo Testamento (é claro), os mesmos livros
que Jesus e os apóstolos, e os judeus de um modo
geral sempre reconheceram.
Alguns
dos apócrifos são realmente úteis
como fontes de informação a respeito de
uma época importante da história do povo
de Deus: o período inter-testamentário.
Os protestantes reconhecem o valor histórico deles.
Seguindo a prática dos primeiros cristãos,
as edições modernas protestantes da Septuaginta
normalmente incluem os apócrifos, e até algumas
Bíblias protestantes antigas os incluíam,
no final,, apenas como livros históricos.
Mas
as igrejas reformadas excluíram totalmente os
apócrifos das suas edições da Bíblia,
e, “induziram a Sociedade Bíblica Britânica
e Estrangeira, sob pressão do puritanismo escocês,
a declarar que não editaria Bíblias que
tivessem os apócrifos, e de não colaborar
com outras sociedades que incluíssem esses livros
em suas edições.”[14] Melhor assim,
tendo em vista o que aconteceu com a Vulgata! Melhor
editá-los separadamente.
O
CÂNON DO NOVO TESTAMENTO
Por motivos óbvios, os judeus não aceitam os livros do
Novo Testamento como canônicos. Se não reconheceram a Jesus
como o Messias, não poderiam aceitar os livros do Novo Testamento
como inspirados. Felizmente, entretanto, não precisamos falar
de um cânon protestante e de um cânon católico do
NT, visto que todos os ramos do cristianismo — incluindo a igreja
oriental — aceitam exatamente os mesmos vinte e sete livros, como
os temos em nossas Bíblias.
É claro,
entretanto, que não se poderia esperar que todos
os vinte e sete livros do Novo Testamento viessem a ser
imediata e simultaneamente reconhecidos como inspirados,
por todas as igrejas, logo na época em que foram
escritos. Algum tempo seria necessário para que
os quatro Evangelhos, o livro de Atos, as epístolas,
e o livro de Apocalipse alcançassem todas as igrejas.
Afinal, no final do primeiro século e no início
do segundo a igreja já havia se espalhado por
três continentes: Europa, Ásia e norte da África.
Além disso, é provável que haja
um intervalo de quase cinqüenta anos entre a data
em que o primeiro e o último livro do Novo Testamento
foram escritos.[15] Por fim, deve-se considerar ainda
que, embora todos os livros canônicos sejam
inspirados, nem todos têm a mesma importância
ou volume. É natural esperar que cartas pequenas
como Judas, e as duas últimas cartas de João,
fossem bem menos mencionadas do que os Evangelhos, Atos,
Romanos, etc.
Também é preciso
observar que havia outros livros cristãos antigos:
evangelhos, cartas, atos, apocalipses, etc. Alguns desses
livros foram escritos por crentes piedosos do primeiro
e segundo séculos, outros eram indevidamente atribuídos
aos apóstolos ou aos seus contemporâneos.
Algum tempo, é claro, seria necessário
para que a igreja, de um modo geral, de posse já de
todos os livros canônicos, bem como de muitos outros
não canônicos, viesse a avaliar a autoria,
testemunho externo e interno, e discernir, pela
ação do Espírito Santo, quais livros
realmente pertenceriam ao cânon. Isso tudo, entretanto,
ocorreu de modo surpreendentemente rápido, de
maneira que antes que cem anos se passassem, praticamente
todos os livros do Novo Testamento já eram
conhecidos, reunidos, reverenciados e tidos como autoritativos,
conforme atestam as evidências históricas
existentes.
Critérios
de Canonicidade dos Livros do Novo Testamento
A principal questão teológica com relação
ao cânon do NT diz respeito ao critério ou critérios
que determinaram a canonicidade dos livros do NT. Por que os vinte e
sete livros, e apenas estes, incluídos em nossas Bíblias
são aceitos como canônicos? A resposta a esta pergunta encontra-se,
em última instância, na doutrina da inspiração.
São canônicos os livros que foram inspirados por Deus. Mas
como foi reconhecida a inspiração dos livros do NT? Quais
os critérios que levaram a igreja a aceitar todos os vinte e sete
livros, e apenas estes, como inspirados e conseqüentemente canônicos?
1)
O Testemunho Interno do Espírito Santo
O critério essencial é o mesmo que levou ao reconhecimento
do Antigo Testamento: o testemunho interno do Espírito Santo na
igreja como um todo. É certo, como já foi mencionado, que
crentes individuais podem falhar em identificar ou não certos
livros como canônicos — especialmente em épocas de
transição, como nos primeiros séculos da igreja
na nova dispensação e durante o período da Reforma.
Não obstante, o testemunho da igreja como corpo (não como
instituição ou indivíduos isoladamente) é o
principal critério de verificação da canonicidade
das Escrituras.
Isso
não significa dizer, entretanto, que seja a igreja
quem tenha determinado o cânon. Quem determinou
o cânon foi o Espírito Santo que o inspirou.
A igreja apenas o reconheceu, o discerniu, pela iluminação
do próprio Espírito Santo, que habita nos
seus membros individuais. William Whitaker, professor
de Teologia na Universidade de Cambridge, no livro Disputation
on Holy Scripture, publicado em 1588, e freqüentemente
citado na Assembléia de Westminster, resume o
papel da igreja como corpo e dos crentes individuais
com relação ao reconhecimento do cânon,
com as seguintes palavras: “...a autoridade da
igreja pode, a princípio mover-nos a reconhecermos
as Escrituras: mas depois, quando nós mesmos lemos
as Escrituras, e as compreendemos, concebemos uma
fé verdadeira...”[16] — isto é,
somos convencidos pelo Espírito da sua veracidade
e identidade.
As
evidências históricas deste reconhecimento
do cânon do Novo Testamento pela igreja são
abundantes.
Logo
no final do primeiro século e início do
segundo (até 120 d.C.), boa parte dos livros do
Novo Testamento já era conhecida, citada e até reverenciada
como autoritativa pelos primeiros escritos cristãos
que chegaram até nós. É o caso da
Carta de Clemente de Roma aos Coríntios, escrita
por volta do ano 95; das cartas de Inácio de Antioquia
da Síria, bispo que morreu martirizado em Roma
entre 98 e 117; da Epístola aos Filipenses, de
Policarpo, discípulo de João que morreu
martirizado, escrita pouco antes do martírio de
Inácio; etc. Apenas a segunda e terceira Carta
de João e a carta de Judas não são
mencionadas nestes escritos mais antigos; obviamente
por falta de oportunidade, visto serem muito pequenas.
Na
metade do segundo e no terceiro século, quando
já há mais abundância de escritos,
preservados,[17] todos os livros do NT são citados,
e todos, de modo geral, reconhecidos como autoritativos,
embora a canonicidade de alguns livros seja colocada
em dúvida ou rejeitada por um ou outro autor antigo.
Orígenes de Alexandria (185-250) e Eusébio
de Cesaréia (265-340), seguindo Orígenes,
por exemplo, parecem lançar dúvidas
sobre Hebreus, 2 Pedro, 2 e 3 João, Tiago e Judas.
Neste período, o assunto da canonicidade dos livros
foi debatido e defendido, tendo em vista as posições
heréticas, como as de Marcião e outros
representantes do gnosticismo. Em 367, Atanásio
apresenta uma lista dos livros canônicos do Novo
Testamento, incluindo todos os vinte e sete livros, e
apenas estes. Finalmente, em 397, no Concílio
de Cartago, a igreja reconheceu oficialmente todos os
vinte e sete livros, e só estes, como canônicos.
Esta decisão foi ratificada pelo Concílio
de Hipona, em 419.
2)
Origem Apostólica
Pelo lado humano, a origem apostólica foi, sem dúvida,
o critério mais importante considerado pela igreja, para o reconhecimento
da canonicidade do Novo Testamento. Assim como os profetas (no sentido
lato) do Antigo Testamento eram a voz autorizada de Deus para o povo — e
de algum modo, todos os livros do AT têm origem profética — assim
também a origem apostólica autenticava um livro como autoritativo,
e conseqüentemente canônico. Os apóstolos eram as testemunhas
autorizadas escolhidas por Jesus, como dirigentes da igreja que surgia.
Para os pais da igreja este era o critério mais importante. Fosse
possível provar que um determinado livro era de origem apostólica,
isso seria suficiente para ser reconhecido como canônico. Por outro
lado, havendo dúvida quanto à origem apostólica
fatalmente haveria relutância — como realmente houve — na
aceitação da canonicidade de um livro.
O
fato é que todos os livros aceitos como canônicos
eram de autoria apostólica, ou tidos como de origem
apostólica. Mesmo Marcos está ligado a
Pedro (foi até chamado de Evangelho de Pedro),
Lucas e Atos provinham da autoridade de Paulo; e Hebreus
era também considerado de Paulo; Tiago e Judas,
dos apóstolos que tinham esse nome.
3)
O Conteúdo dos Livros
O conteúdo dos livros também foi sempre um critério
importante no reconhecimento da canonicidade dos livros do NT. Livro
algum, em desacordo com o padrão doutrinário e moral, ensinado
por Jesus e os apóstolos, seria recebido como autoritativo. Foi
assim que muitos escritos heréticos foram repudiados pela igreja.
Foi com base nesta regra, também, que muitos livros apócrifos
foram rejeitados, visto que em franco desacordo com o caráter,
simplicidade, doutrinas e ética dos livros canônicos.
4)
As Evidências Internas do NT
Embora os critérios acima tenham sido decisivos, as evidências
internas do próprio NT, quanto à inspiração
e autoridade de alguns desses livros, revestem-se de especial importância. É claro
que não se deve esperar encontrar uma lista completa do cânon
do Novo Testamento dentro do próprio Novo Testamento. Não é assim
que Deus age. O lado humano da revelação (o instrumento)
não é eclipsado pelo divino — não é assim
na inspiração (as Escrituras não são pneumagrafadas),
não é assim na preservação (as Escrituras
não são pneumapreservadas), e também não é assim
no cânon (as Escrituras não são pneumacanonizadas).
O elemento fé permeia toda a Bíblia, e “a fé é a
convicção de fatos que se não vêem”(Hb
11:1).
Isto,
entretanto, não significa de modo algum que os
autores dos livros do Novo Testamento e seus primeiros
leitores não tivessem consciência da inspiração
desses livros. Alguns assim afirmam dizendo que, de início,
as cartas e Evangelhos foram escritos e recebidos como
cartas e livros comuns, sem pretensão de inspiração
ou canonicidade, por parte dos autores e leitores. Contudo
tal afirmação não corresponde aos
fatos. Há, no prório Novo Testamento, evidências
claras da inspiração, autoridade e conseqüente
canonicidade desses livros. O apóstolo Paulo não
escreve como alguém que aconselha, exorta ou ensina
de si mesmo, mas com autoridade divina, extraordinária.
De onde provém a autoridade de Paulo, ao exortar
os Gálatas (1:8), dizendo: “...ainda que
nós, ou mesmo um anjo vindo do céu vos
pregue evangelho que vá além do que
vos tenho pregado, seja anátema”? Ele explica
logo a seguir, quando afirma: “...o evangelho por
mim anunciado não é segundo o homem;
porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem
algum, mas mediante revelação de Jesus
Cristo” (Gl 1:11,12).
Que
os livros do NT não tinham caráter meramente
circunstancial, específico e momentâneo é evidente
nas exortações no sentido de que fossem
lidos publicamente (o que só se fazia com as Escrituras),
e em outras igrejas (1 Ts 5:27; Cl 4:16). Paulo afirma
que os tessalonicenses receberam as suas palavras
como palavra de Deus; e ele confirma que realmente são:
Outra
razão ainda temos nós para incessantemente
dar graças a Deus: é que, tendo vós
recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de
Deus, acolhestes não como palavra de homem, e
sim, como, em verdade é, a palavra de Deus, a
qual, com efeito, está operando eficazmente em
vós, os que credes (1 Ts 2:13).
O
apóstolo Pedro também coloca os escritos
de Paulo em pé de igualdade com as Escrituras,
reconhecendo autoridade igual à do Antigo Testamento:
...e
tende por salvação a longanimidade de nosso
Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo
vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao
falar acerca destes assuntos, como de fato costuma fazer
em todas as suas epístolas, nas quais há certas
coisas difíceis de entender, que os ignorantes
e instáveis deturpam, como também deturpam
as demais Escrituras, para a própria destruição
deles (2 Pe 3:15-16).
Em
1 Timóteo 5:18, o texto de Lucas 10:7 é chamado
de Escritura, juntamente com Deuteronômio 25:4: “Pois
a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando
pisa o grão (Dt 25:4). E ainda: O trabalhador é digno
do seu salário” (Lc 10:7).
Os
Livros Disputados
Como já mencionado, alguns pais da igreja tiveram dúvidas
quanto à canonicidade de alguns livros do NT. Enquanto a maioria
dos livros praticamente nunca tiveram a sua canonicidade disputada pela
igreja, outros sofreram alguma resistência, embora parcial, para
serem aceitos como canônicos. Os principais foram: Hebreus, Tiago,
2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse.
Entretanto,
não é difícil compreender as razões
desta relutância, pois cada um desses livros apresenta
uma ou outra característica que, de certo modo,
justificava o zelo por parte da igreja em averiguar mais
cuidadosamente a canonicidade deles. Afinal, haviam outros
livros cristãos, de conteúdo fiel e ortodoxo,
que poderiam ser confundidos, se não houvesse
discernimento por parte da igreja; a exemplo do que aconteceu
com os apócrifos do Antigo Testamento, pela Igreja
Católica.
Não é muito
difícil compreender os motivos que levaram os
referidos livros a terem sua canonicidade disputada.
No caso de Hebreus, o problema estava na autoria e estilo.
A tradição dizia ser de Paulo, mas não
há o nome do autor, como é costume de Paulo.
O estilo também não é exatamente
o mesmo, embora haja muita semelhança. Com relação
a Tiago, a aparente discrepância doutrinária
com as demais cartas e a possibilidade de haver sido
escrita por outro Tiago certamente dificultaram o reconhecimento
da sua canonicidade. A segunda carta de Pedro, além
de, por razões desconhecidas, provavelmente
haver tido circulação limitada, apresenta
alguma diferença de vocabulário e estilo,
o que, segundo Jerônimo, foi a causa de alguns
pais duvidarem da genuinidade da epístola.[18]
Quanto a Judas e 2 e 3 João, o próprio
tamanho, importância relativamente menor, e a natureza
mais pessoal das duas últimas, certamente dificultaram
a circulação e reconhecimento delas no
cânon — no caso de Judas, a questão
da origem apostólica também pesou. Já o
livro de Apocalipse, o qual teve aceitação
generalizada no segundo século, teve sua canonicidade
posteriormente disputada, provavelmente pela dúvida
lançada por Dionísio de Alexandria, seguido
por Eusébio de Cesaréia, quanto à origem
apostólica do livro, devido ao que consideravam
diferenças de estilo entre ele e o Evangelho de
João; o que o levou a atribuir o livro a um outro
João.
É claro
que estas dificuldades são todas aparentes. Estilo
não pode ser determinante, pois a natureza do
assunto pode acarretar mudança de estilo. Além
disso era comum o uso de amanuenses. Tamanho “também
não é documento;” e assuntos relativamente
menos importantes tornam-se importantíssimos em
determinadas circunstâncias — a História
da Igreja tem comprovado isso. Quantas vezes as cartas
de Judas, 2 e 3 João têm sido de valor inestimável
para pessoas e igrejas específicas! A “discrepância” doutrinária
de Tiago já tem sido suficientemente explicada: é apenas
aparente. A relutância por parte de alguns, no
terceiro ou quarto séculos em reconhecer a canonicidade
desses livros não deve de modo algum ser encarada
como necessariamente depreciativa. Pelo contrário,
por mais que tenham sido submetidos a teste, até pelos
reformadores, esses livros foram aprovados pela
História, e encontraram lugar seguro e imbatível
no cânon do Novo Testamento.
Conclusão
Sejam quais forem os critérios que mais influenciaram os pais
da igreja no reconhecimento dos livros do Novo Testamento, e apesar da
relutância de alguns em aceitar todos os vinte e sete livros, e
não obstante o grande número de livros apócrifos
que surgiram nos primeiros séculos, o verdadeiro cânon teria
que prevalecer. E prevaleceu. Inspirados que eram, tinham poder
espiritual inerente. E este poder manifestou-se de tal modo que todos
os ramos do cristianismo alcançaram unanimidade espantosa,
de modo que desde pelo menos Atanásio, o primeiro a apresentar
uma lista completa do cânon do NT, até nossos dias, não
tem havido nenhuma objeção realmente séria quanto à canonicidade
do NT, nos três principais ramos do cristianismo.
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* Extraído de Paulo R. B. Anglada, Sola Scriptura: A Doutrina
Reformada das Escrituras (São Paulo: Editora Os Puritanos, 1998),
33-48.
[1]
A. Bentzen, Introdução ao Antigo Testamento
(São Paulo: ASTE, 1968. vol.1.), 29.
[2]
Ordem dos escribas que originou-se com Esdras, e que
se estendeu até 200 AD, cuja função
era preservar puro o texto bíblico.
[3]
O que funcionava mais ou menos como os modernos dígitos
verificadores usados nos computadores para evitar
erros em informações importantes como número
de contas bancárias, CPF, CGC, etc.
[4]
Ele menciona vinte e dois, ao invés de vinte e
quatro, porque com certeza, originalmente, Rute era agrupado
com Juízes e Lamentações com Jeremias.
[5]
Capítulo primeiro.
[6]
Gleason L. Archer Jr, Merece Confiança o Antigo
Testamento? (São Paulo: Vida Nova, 1979), 76.
[7]
R. L. Harris, Inspiration and Canonicity of the Bible;
An Historical and Exegetical Study, 216; Wilbur N. Pickering,
The Identity of the New Testament Text, 93-96; e Archer
Jr, Merece Confiança o Antigo Testamento?, 51.
[8] “...é provável
que certas porções do Antigo Testamento
siríaco, em primeiro lugar o Pentateuco, tenham
sido introduzidos naquele reino nos meados do primeiro
século de nossa era” (R. A. H. Gunner, Texto
e Versões do Antigo Testamento. Versão
Siríaca, em J. D. Douglas, ed., O Novo Dicionário
da Bíblia. vol. 3, 3 ed. (São Paulo: Vida
Nova, 1979): 1598.
[9]
Com exceção de Enoque 1:9, aludido em Judas
14-16; contudo, não citado autoritativamente,
e sim como qualquer outro autor; assim como Paulo cita
Arato em Atos 17:28 e Menander em 1 Coríntios
15:33.
[10]
A biblioteca de Alexandria, segundo alguns, chegou a
ter cerca de duzentos mil volumes.
[11]
R. L. Harris, Inspiration and Canonicity of the Bible;
An Historical and Exegetical Study (Grand Rapids: Zondervan,
1957), 192.
[12]
Archer Jr, Merece Confiança o Antigo Testamento?,
80.
[13]
Jerônimo foi o primeiro a usar o termo apócrifo.
[14]
A. Bentzen, Introdução ao Antigo Testamento,
49
[15]
A Epístola aos Gálatas foi escrita por
volta de 48/50 e o Livro de Apocalipse entre 81/96.
[16]
Citado em Wayne Spear, "The Westminster Confession
of Faith and Holy Scripture," Premise 3:4 (1996):
9. Internet, http://www.capo.org/premise/96/april/p960409.html
[17]
Tais como os de Justino Mártir (165), Irineu (170),
Clemente de Alexandria e Tertuliano de Cartago (200).
[18]
M. Tenney, Nuestro Nuevo Testamento; Una Perspectiva
Historico Analitica (Chicago: Editoral Moody, 1973),
477.
(
Biblioteca Reformada ARPAV )
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